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Aldeias reabilitadas (entrevista)
(Entrevista publicada originalmente no Gznación o 10 de Dezembro do 2009)
José António Cidre: "Às vezes as aldeias rehabilitadas acabam por serem simples parques temáticos"
Aldeias inteiras galegas estám à venda. Em Lugo seica há sobre 600 e parece que som um grande nicho no mercado do turismo. Gznación falou com José António Cidre para avaliar como poderia impactar na arquitetura tradicional este modelo urbanístico.
Que suporia para a arquitetura tradicional galega que núcleos do rural fossem comprados por inteiro para convertê-los em reclamos turísticos?
Essa questom pode-se enfocar desde vários pontos de vista, seguramente todos interessados, mais a questom é tentar atingir um amplo abano na valoraçom da questom.
É claro que, tanto os promotores como os implicados em geral no artelhamento desta linha de atividades, defendem as possibilidades de recuperaçom que suponhem os projetos de reabilitaçom de núcleos rurais que, sem eles, ficariam talvez em ruínas condenadas ao desaparecimento. Certamente é algo que nom podemos negar, ainda que às vezes a recuperaçom e posta em valor destes conjuntos nom ajuda para nada à sua dignificaçom, e acabam por serem simples parques temáticos à imagem de velhos museus de reproduções que nem explicam a sua origem nem o seu funcionamento, perdendo todo o sentido.
Os usos mudárom muito, ninguém o pode negar, mais com umha profunda análise podem-se tirar elementos comuns que guiem a reabilitaçom, e nom falo de elementos técnicos, senom arquitetónicos e sociais. As formas arquitetónicas tradicionais da Galiza surgiram como produto de umha armaçom social característica, de umhas relações, atividades, mesmo de umhas necessidades concretas. Que acontece se recuperamos formas geradas por esse crisol de influências quando já desaparecérom? Pois que ficam valeiras de contido, e acabam sendo um decorado obsoleto numha obra de teatro efémera. Umha obra de teatro que depende dos atores, e estes dos ciclos aos que se vê submetida a atividade turística, com a instabilidade que isso supom. E todo sem esquecermos-nos desse perigo real da vulgarizaçom do Património ao converter-se numha pura atraçom sem sentido de seu.
Aos olhos de um experto que consequências poderia ter este modelo urbanístico de reabilitaçom baseada no comércio/comprado do núcleo de populaçom restaurado?
Todo depende da intensidade e da mistura de usos que se lhe dê, assi como da qualidade das reabilitações que se fagam.
Umha cousa que devemos diferenciar é entre restauraçom e reabilitaçom. Quando falamos de restauraçom estamos a falar de um processo de recuperaçom o máis semelhante ao original possível co objectivo de, ou bem recuperar as atividades que geraram essa forma arquitetónica, ou bem recuperar a sua memória e oferecê-las como informaçom da história passada às gerações atuais e futuras. Ao invés, a reabilitaçom supom umha recuperaçom tendo em vista servir a novas atividades, muitas vezes sem relaçom com as originais e, em muitos casos, umha alteraçom das "regras do jogo" que criaram o espaço arquitetónico. Aqui o resultado vai depender da habilidade e do trabalho de estudo e reinterpretaçom que se faga, pois a dificuldade é maior por umha ampla exigência no programa de uso. Ao respeito, temos claro o difícil que resultaria, por exemplo, reabilitar a Catedral de Santiago para o seu uso como Parlamento Galego. Pois nas aldeias galegas ocorre outro tanto.
Assi sendo, adoitamos ver casos de reabilitaçom que deixam conjuntos que nada tenhem que ver co original, mais tampouco muito sentido com as circunstâncias atuais. Quer dizer que entre a reabilitaçom e a construçom 'ex novo' tal vez for a segunda a melhor opçom, pois se o processo de recuperaçom nom ajuda à posta em valor do que de tradicional e próprio tem o ente sobre o que e atua de pouco serve.
O trabalho de recuperaçom, pois, deve ser mui mesurado e equilibrado já que, caso contrário, pode-se ir desde umha "momificaçom" inservível até um "pastiche" fora de lugar as máis das vezes sem relaçom co contorno.
O problema é, que grande parte dos investidores som forâneos e adoitam também fazer uso de projetistas alheios, polo que com frequência os resultados pertencem à definiçom do pastiche, com espaços desvirtuados, proporções erradas e elementos ou referências pouco harmoniosas co conjunto territorial e o espírito próprio. Mesmo muitas vezes, vendo os resultados de certos projetos de intervençom em enclaves galegos temos a impressom de estar vendo umha aldeia dos montes suíços ou pirenaicos...
A sorte é que, normalmente, nom se modifica a própria base da trama organizativa assi como tampouco a volumetria externa, o que supom umha boa nova para a integridade de ordenaçom do território. Mais todo depende também do estado de conservaçom e das possibilidades de identificar o existente e justificar a atuaçom como recuperaçom ou troco e o que pode ser correto ou nom.
O uso turístico de que modo poderia garantir a preservaçom das aldeias?
O uso turístico em exclusiva pode chegar a garantir a supervivência de umha parte das aldeias, mais nunca de 100% e de um modo estritamente sustentável talvez seja muito inferior ao que podamos pensar. A verdadeira sustentabilidade para núcleos rurais passa por um troco de mentalidade, a mistura de usos e a extensom do conceito de alojamento partilhado".
Agora mesmo o conceito de turismo rural" está baseado na recuperaçom de umhas edificações e o seu uso de lezer de modo exclusivo, mesmo fixando períodos máximos de estância e definições do alojamento partilhado nuns âmbitos muito limitados, parece que dentro de umha ideia de casa de lavrança unicamente. Para nada se tem em conta a possibilidade de umha atividade produtiva atual. Mais, nom seria má ideia a criaçom de umha rede de postos de trabalho ou tele-trabalho distribuída por todos os núcleos rurais da Galiza que permitisse a coexistência de rede produtiva, estância temporária e turismo. O problema é que a atual infra-estrutura de transportes e telecomunicações galegas é completamente deficitária para pensar em artelhar um projeto sério ao respeito.
Que normativa pesaria neste momento sobre estes assentamentos? Seria garante de umha óptima conservação destes núcleos?
Quanto à normativa, basicamente podemos citar o Decreto 191/2004 de 29 de Julho sobre estabelecimentos de turismo rural, e um sarilho de normativa urbanística e de proteçom do meio rural, no seu caso, de aplicaçom em cada zona (Lei 10/1995 de 23 de Novembro de ordenaçom do território da Galiza; Lei 9/2002, de 30 de Dezembro, de ordenaçom urbanística e proteçom do meio rural da Galiza com as modificações introduzidas por: lei 15/2004 de 29 de Dezembro , lei 6/2007 de 11 de Maio de medidas urgentes em matéria de ordenaçom do território e do litoral da Galiza , lei 6/2008 de 19 de Junho de medidas urgentes em matéria de vivenda e solo , etc.).
Com tal rosário de leis parece que a proteçom estaria máis que garantida, mais o verdadeiro é que umha grande quantidade de importantes questões ficam a critério da Administraçom, co que nada impede que se podam autorizar atuações desafortunadas arquitetónica e socialmente enquanto cumpram com uns requerimentos mínimos de bom "oficio". Ainda, mesmo algumhas questões da própria normativa impedem o desenvolvimento do modelo fora dos parâmetros da casa de turismo rural com atividades típicas, e mesmo exigindo que se cumpra um número mínimo delas (caminhadas, rotas a cavalo, bicicletas, quads, piscina, tênis, basquete, golfe, etc.). Ainda, a instabilidade da normativa urbanística e de vivenda acaba por ser um problema acrescentado, pois o que deveria ser umha questom de consenso nacional vem-se convertendo em moeda de troco político, o qual nom favorece para nada o desenvolvimento sério em qualquer âmbito que dependa da ordenaçom territorial e urbana. Além disso, cumpre lembrar que a normativa urbanística deveria ser desenvolvida e controlada em primeira instância polas câmaras municipais galegas, cousa que tampouco garante o processo, por diversos motivos.
Está claro que a normativa atual tende a criar um modelo repetitivo que nom permite a evoluçom ou melhora, mais ao tempo que também nom garante a recuperaçom social ou arquitetónica dos núcleos rurais e que mesmo faz depender de modo perigoso cos ciclos de demanda ou bonança económica das atividades turísticas, arriscando ao desaparecimento do modelo por questões económicas ou mesmo de perda de interesse (vam caminho dilo co desleixo crescente na promoçom oficial da Cultura e identidades próprias). Isso sem esquecer no ênfase na "folklorizaçom" e banalizaçom das tradições que nom é precisamente umha via cultural encaminhada a obter um turismo de qualidade e mesmo de provável investimento material.
Entre 80 e 360 mil euros por grupos de 14 casas. A que responde esse preço, é realista ou é um chamariz?
O preço nom é real, pois estamos a falar na meirande parte dos casos de conjuntos edificatórios de muita qualidade arquitectónica mais também, ao tempo, completamente inhabitáveis. Quer dizer, que o preço real deve contemplar também a reabilitaçom, nom só das vivendas, senom também do conjunto do assentamento (do conjunto rurbano, poderíamos dizer) tanto na infra-estrutura existente (ruas, rede eléctrica, se houver) como na precisa para os novos usos (traída e depuraçom de augas residuais, telecomunicações, etc.), polo que o preço para a posta em funcionamento pode superar com muito o de compra.
Mália todo, tampouco há mecanismos que evitem a especulaçom pura, pois nada garante que essas aldeias cheguem a ser reabilitadas, co qual o preço pode chegar a ser um presenteio em segundo que aspectos.
Qual seria a sua soluçom para evitar que estes grupos de vivendas do rural acabassem caindo?
Nom há soluções mágicas, decerto, mais sim possibilidades polas que há que trabalhar e investigar. Sem dúvida o primeiro passo e a melhora das comunicações físicas e eletrónicas, de modo que seja singelo e económico tanto o deslocamento como a conexom entre os diferentes núcleos habitados da Galiza, para logo começar a repensar as estratégias de recuperaçom, mantendo a do turismo, porém como máis umha de um amplo abano que inclua também outras atividades produtivas e a promoçom do I+D+i. Está claro que o ideal é a convivência de gandeiria, agricultura, turismo e serviços numha mesma trama e potenciando ao máximo as sinergias entre atividades. Isso suporia recuperar umha populaçom estável ao longo de todo o ano, nom dependente de temporadas turísticas ou turnos económicos, e também dar sentido às edificações e aos velhos ofícios, mais, ao tempo, inserir novas ideias. Porque nom começar a trabalhar, como já há tempo fam noutros países da Europa, em sistemas de depuraçom de augas por meio de sistemas ecológicos com plantas macrofitas?, ou reduzir o tamanho dos sistemas produtores de energia como moinhos ou placas solares fotovoltaicas à escala das vivendas, integrando-as muito melhor no entorno e fazendo com que ganhem em efetividade? Também devemos contar com que a investigaçom da forma rurbana e do meio ambiente histórico e social pode dar bases de projetaçom e reabilitaçom sensatas e consistentes.
Há muitas possibilidades, ainda que é a imaginaçom a única que pode fornecer soluções, sempre na base de oferecer alternativas reais à gente que decida colaborar no rexurdimento das aldeias, e isso supom, lembramos máis umha vez, umha comodidade nos deslocamentos e nas telecomunicações, principal eiva no sistema territorial atual da Galiza.
E por suposto, imprescindível frear a progressiva desidentificaçom e aculturaçom fomentada por certos sectores e que vai caminho do desmantelamento do sistema produtivo e cultural galego, co desaparecimento dos nodos de atraçom que som os que podem manter o turismo e, ao tempo, as alternativas de criaçom e produçom nas que basear o futuro.





